6 de Outubro de 2026
10.º AnoDestaquesDocumentários

🎬 Documentário: O Futuro das Pescas e da Aquicultura Offshore em Portugal – Desafios e Oportunidades [com guião de exploração]

O mar sempre foi um pilar da identidade e da economia portuguesa, mas a sustentabilidade dos recursos biológicos e a nossa dependência externa impõem uma reflexão profunda. À semelhança do que acontece com outros recursos estratégicos, a gestão do espaço marítimo e dos recursos piscícolas exige planeamento, investimento e inovação tecnológica.

Enquanto enfrentamos limites biológicos na pesca tradicional, a aquicultura surge como uma alternativa viável e estratégica para garantir a sustentabilidade e a soberania alimentar do país.

O Paradoxo do Consumo e da Dependência Externa em Portugal

Portugal tem uma relação histórica e gastronómica inegável com o mar, sendo frequentemente considerado um dos maiores consumidores de pescado da Europa e do mundo. Contudo, esta paixão esconde um paradoxo preocupante: 

👉🏻 importamos entre 60% e 80% do pescado que consumimos.

A pesca tradicional, como o cerco praticado em Sesimbra, é marcada por uma enorme incerteza. Os pescadores trabalham frequentemente em jornadas exaustivas que podem variar entre as 7 e as 17 horas diárias, muitas vezes regressando ao porto sem capturas significativas. Além disso, os profissionais do setor não usufruem de um salário base fixo, dependendo inteiramente de uma percentagem sobre a faturação das capturas efetuadas.

Em termos de escala, o contraste com outros países atlânticos é evidente. Enquanto Portugal captura anualmente pouco mais de 163 mil toneladas de peixe do Atlântico, a Noruega regista capturas na ordem dos 3 Milhões de toneladas. Este diferencial demonstra a necessidade de reorganizar o setor e explorar novas vias de produção sustentável.

A Transição para a Aquicultura Offshore e a Inspiração Norueguesa

Para evitar a rotura dos estoques marinhos selvagens, a pesca tradicional enfrenta limites biológicos estritos baseados em recomendações científicas. Face a este cenário, a Noruega reinventou a sua indústria focando-se na aquicultura, que hoje constitui o segundo grande motor da sua economia, logo a seguir ao petróleo.

A ambição atual passa por transpor este modelo para águas portuguesas. Contudo, a severidade do Atlântico na costa ocidental de Portugal continental exige soluções tecnológicas radicalmente diferentes das quintas protegidas dos fiordes noruegueses. Investigadores portugueses (através do INESC TEC, em estreita colaboração com o instituto norueguês SINTEF/CTEF) estão a desenvolver tecnologias para aquicultura offshore subaquática.

O consenso científico aponta para a instalação de gaiolas posicionadas a cerca de 30 metros de profundidade, abaixo da zona de maior turbulência das ondas. Nestes sistemas:

  • As gaiolas são controladas e monitorizadas remotamente através de veículos robóticos subaquáticos e sensores de alta precisão.
  • A alimentação é gerida a partir de plataformas de superfície, minimizando o risco para os operadores humanos.
  • A segurança estrutural e a saúde dos espécimes são garantidas por tecnologia de ponta.

Os Obstáculos ao Crescimento: Burocracia, Infraestruturas e a Cadeia de Valor

Apesar do enorme potencial do nosso espaço marítimo, a expansão da aquicultura em Portugal enfrenta três grandes barreiras:

  1. A Burocracia e o Licenciamento: O processo para instalar uma quinta de aquacultura em Portugal é moroso e complexo, exigindo a articulação de seis entidades públicas distintas: DGRM, Secretaria de Estado das Pescas, ICNF, Secretaria de Estado do Ambiente, ASAE e Docapesca. Sem uma agilização dos processos regulatórios, um licenciamento pode arrastar-se por anos.
  2. A Falha na Cadeia de Produção (Maternidades): Portugal carece de maternidades de peixe para espécies de engorda em offshore, como o robalo e a dourada. Atualmente, existem apenas maternidades para peixes planos (como o linguado), o que obriga os produtores nacionais a importar juvenis de outros países europeus.
  3. A Fragilidade das Infraestruturas Portuárias: Portos de pesca fundamentais, como Sesimbra e Vila Real de Santo António, apresentam limitações graves e falta de manutenção nas infraestruturas de acostagem e segurança dos barcos. Embora a Docapesca preveja um investimento de 20 milhões de euros nas docas e portos até 2030, o valor é considerado curto face às necessidades globais diagnosticadas.

O Caso Prático da “Seaculture” e as Metas de Soberania Alimentar

A única exploração aquícola verdadeiramente offshore a operar na costa de Portugal continental é a Seaculture (do grupo Jerónimo Martins), localizada na Área de Produção Aquícola (APA) de Monte Gordo, no Algarve. Esta exploração beneficia de águas mais tranquilas influenciadas pelo Mediterrâneo e está instalada a 10 km da costa, a uma profundidade de 35 metros — o que permite uma dispersão eficaz e sustentável dos resíduos orgânicos.

Atualmente, a unidade conta com 56 gaiolas de produção (cada uma com 30 metros de diâmetro) e tem como objetivo expandir para as 98 unidades. Embora a produção atual ronde as 100 toneladas, o objetivo estratégico a curto prazo é atingir as 4500 toneladas de vendas por ano.

A nível nacional, a produção anual de aquicultura aproxima-se das 20 000 toneladas, enquanto a vizinha Espanha (com uma Zona Económica Exclusiva menor) produz cerca de 300 000 toneladas — 15 vezes mais. Para colmatar esta distância, o governo português definiu como prioridade estratégica para 2030 o reforço da soberania alimentar através do desenvolvimento da aquicultura, reduzindo assim o défice da balança comercial alimentar, embora ainda sem metas quantitativas fixadas.

Para além do apoio financeiro e da simplificação burocrática, o sucesso deste setor dependerá também da capacidade de atrair jovens profissionais através da divulgação da tecnologia avançada que hoje já equipa as embarcações modernas, aliando a resiliência dos pescadores tradicionais à inovação dos biólogos, veterinários e engenheiros.

Título Original:  Mar Prometido
Programa:  Linha da Frente [RTP]
Jornalista:  Lavínia Leal
Ano: 2026
Duração: 34 minutos

Podes associar este artigo à matéria de Geografia do 10.º Ano – “A exploração dos recursos marítimos” ou “A gestão do espaço marítimo português”.

Guião de Exploração

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Bruno Carvalho

Professor de Geografia 3.º Ciclo do Ensino Básico e Secundário

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